quarta-feira, 15 de dezembro de 2010


A dor
A dor que vem daquele lugar inaudito,
A própria, que grita e vira-se e contorce-se como louca,
A procura de resposta, de aconchego, arrasta-se como um gato cansado para debaixo dum abrigo
Felina orgulhosa, dura, ríspida por dentro mas cheia de sorrisos por fora
Louca
Louca como se a loucura nunca fosse passar
Um suspiro cansado, uma vontade de dormir até acordar
Alegre, jovem, brilhante.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Outubro.

On the day that we met
I awoke
From a total sleep
You said
Keep your eyes open wide
And keep my arms open wide
You brought me courage
You bring me courage
To keep my eyes open wide
And keep my arms open wide
You brought me courage

You show
A kind of delight
Dancing 'round
Like a dragonfly
Like a coverlet in the summer's air
In the summer's air
In the summer's air

You wrap your curve of delight
Round my cold cold neck
You're a coverlet
In the summer's air
In the summer's air
In the summer's air



Caminhava como se fosse tropeçar a qualquer instante. Não havia sequer um segundo que não pensasse nas vantagens ou desvantagens do assunto: como uma pessoa gulosa que tenta se convencer de que não deve comer um doce, mas sente que está salivando só de lembrar do sabor, da aparência, da satisfação. Certo é que existem muitas coisas, muitas além do amor passional, mas tinha um certo quê de vício naquilo (tinha?), ou, quem sabe, o certo mesmo fosse ser em dois (mas como então ser separado? Porque gostava muito de ser uma só), reproduzir e morrer. Aos tropeções chegou ao café, serviu-se de chá porque estava, para variar, doente, e pensou em mil coisas que poderia estar a pensar para não concentrar-se na que estava a sua frente, mas que estava também em todos os lugares – sempre esteve, mas com diferentes rostos. Tinha vontade de parar o tempo, talvez ainda para ser o que geralmente se espera de uma figura feminina. Mas talvez tenha nascido sem uma peça no quebra-cabeças, talvez não pertencesse a este mundo – coragem grande talvez fosse mesmo dizer não. Tanto a se ver e viver, o chá que estava ali, quentinho, o mar reluzente à noite, o frio, a chuva. Não há nada que diga, que se afirme em livro algum, a necessidade de não ser só. Mas a vida é tão cheia de tudo, tão bonita e triste, e as roupas ficam velhas e as caras também e é sempre bom poder dizer: olha, este sapato já estragou-se, tenho um livro pra te emprestar, hoje envelheci mais um dia. Mas não há nada disso. Bom mesmo talvez fosse pensar na música do Yann Tiersen, e nas pessoas que não podem estar conosco porque não conseguimos ou não queremos estar com elas mas que ensinam tanto e amam sem necessidade de definições. Há uma dúvida no ar, seu olhar ficou sério e a coisa tornou-se pesada, porque sabia que ele não estaria mais lá, e que talvez, portanto, fosse melhor dizer não antes de ouvir a mesma palavra.
Tarde demais.

domingo, 11 de julho de 2010

do desenho do meu amigo.


Fui passear pelos desenhos de um amigo meu, que aliás produz coisas excelentes.
e me deparei com essa frase:

E SE O AMOR FOR UMA COISA QUE INVENTAMOS SÓ PARA NOS DISTRAIRMOS?

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então eu me pergunto: qual o peso dessa nossa distração?
O quanto de amor carregas na alma ?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Estudo para projeto:O Lugar que o Corpo Ocupa - Sobre o Peso do Amor.




Como se estivesse em algum lugar escrito, planejado, que tinha de ser assim, e era lindo, era leve, dava vontade de flutuar pelo mundo.
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Como se o ar ou água fossem faltar, como se o sol não fosse aquecer? Não.
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Entram uns pontinhos de reticência e fica ali, o amor, a espreitar-me pela janela da alma.
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Deve de ser como dançar na chuva. Pois eu digo-te: eu não sei. Não se sabe se de fato é amor se não se prova, mas depois de provar é que se percebe a coisa em si. Estes amores forçados,tenho cá para mim, que não são amor. Acho que deve ser leve e a gente não sente o peso, mas sabe que está lá, e mesmo que diga: não, não, eu não quero mais! O outro se ri e sabe que não é de verdade.
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Só com muita estupidez e ansiedade se acaba com isso.
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Tenho cá para mim que é assim também que se amam todas as coisas de um jeito de amar de verdade. Não me perguntem mais, eu não sei o que me acontece: mudei de pedra para algodão.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Poeminha de cartório: de quando se diz não.


O que eu desejava agora era
Noites de cetim
Para compensar
Dias de ferro


Medos com
Imaginações mirabolantes
Rondam, espreitam
Tomam conta.

Insisto em me culpar
Sempre fiz
A coisa errada.
Apostas no abismo.


Circula o meu corpo
A tensão
O frio
A primavera que insiste
Em não florescer.

Despeço-me de ti,
Tu, que pensei que fosse
Ficar uns tantos anos
A andar no mesmo caminho.


Se tivesses algo lá dentro
Terias deixado coisa ruim ou boa
Além do vazio.

Eu gostava de poder me despedir à grande
Dar-te flores, desculpar-me porque amei tanto sem ser a ti,
Ou algo assim,
Fingir compreensão,
Ignorar meus esforços passados,
Impor a mim mesma um bocado de pena
(porque tu vais, muito em breve, me ver partir)
Ou remorso
(porque sinto que andei a ter duas vidas.)


Mas nada.
Há sim muito dentro de mim.
Mas sofrer, meu querido,
Não mais.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Claudel


A água agora desce pelo buraco. Mas enchi a banheira, com camomila, camile. E andava a pensar, depois que desliguei a música que estava incomodando meu silêncio interno, estou louca. E não me importei camile, porque não era o mesmo dantes. Antes era uma coisa assim, os outros que despertavam minha loucura, e era dor, não era bem a falta de lucidez. Eu não cantava nem colocava minha cabeça debaixo dágua para ver como meus olhos enxergavam naquela água amarela, eu também não deixava meu braço dançar até cair e ver a água subir um bocadinho – só um bocadinho só, tá – do impacto daquele braço a bater na água e penetrar sua densidade. Não camile, antes eu tinha medo. Antes não era eu, era o que eu imaginava que eu seria se tivesse o amor ou o ódio dos outros, os outros sabe, aqueles que importam mas no fim, que é que tem isso, nada.
E eu suei, e eu prendi a respiração, mas meu nariz doeu da água começar a entrar. E não é que eu queria morrer, porque não quero mais morrer camile, eu quero é ficar bem vivinha. Eu quero que tu me vejas, uma hora dessas, a passar a mão pelos teus cabelos, sempre tão emaranhados, com a tua cabeça a mover-se num leve impulso para arrumar a tua franja, que segundos depois tu desarrumas. Eu estou bem minha querida, já não é aquilo mais, também não é o que não seria por si espontâneo, se não for já não quero mais, e isso não é desistir, é só deixar a água do banho de camomila descer pelo buraco.

Para Rachel, com amor.