
Não há como. Os dias passam tão rapidamente como as nuvens no céu, que parecem vagarosas mas a bem da verdade é que se a gente olha um minuto depois elas já se foram. Os dias são como os anos, que não se percebe mas passam. E os amores também, e as amizades, e as pessoas que morrem a gente queira ou não. E tudo fica assim, armazenado na cabeça, guardado como se a gente fosse eterno, mas não é. E as memórias se misturam e se confundem e se condensam tanto que por vários anos mantive um diário que no oitavo exemplar desisti da empreita. Não há como, não há remédio, e hoje olho pro meu rosto e vejo o resultado de tudo, haja produto de beleza, cosmético que oferecem pra gente mas a bem da verdade, como já dito, se a gente olha um minuto depois já é outro. É tão estranho ser, este estado entre o desperto e o sonolento, de andar por entre a multidão sem a mínima idéia do que se passa por dentro de cada um, olha lá aquele homem velho que acabou de passar do meu lado, será que já foi jovem, será que sabe que vai morrer, olha lá aquele cachorro tão bonito de pêlo brilhante, ele late por comida, a gente late por dinheiro, e alguns até mordem, penso agora. Talvez o que me confunde não é como começar, se começa mesmo sem saber como, o negócio é como terminar, o que é esse negócio que chamam de vida que tem um começo meio e o fim cadê, a gente nunca sabe o momento, e se sabe finge que vai demorar mais um pouquinho, que é pra se sentir satisfeito e fingir que dá tempo de consertar todo pecado,erro,falta de palavras de amor ou pancadas que deviam ser dadas em alguém. Essa tal de existência deve ser então como um texto que nunca sei como terminar, mas se dessa forma fosse então os escritores saberiam como terminá-la, não, a vida não tem nada a ver com um livro ou um texto, ela é essa coisa mesmo sem definição certa de sujeito e predicado e com a qual eu nuca sei o que fazer.