domingo, 20 de dezembro de 2009

Reflexão sobre ballet e dança contemporânea. Parte 1.


Trabalho apresentado para a disciplina de O Corpo e o Espaço nas Artes Contemporâneas, cadeira do mestrado no Depto de Ciências de Comunicação.
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Grotesco é um derivado do termo latino grotto que significa gruta ou pequena caverna. A expressão grotesco surgiu no século XIV quando foram descobertos soterrados em Roma, por acaso, corredores e salões do antigo complexo palacial Domus Aurea, uma construção requisitada pelo imperador Nero após o grande incêndio que consumiu boa parte da cidade em 64 d.C. (o qual se atribui a ele). Nesses espaços subterrâneos reabertos depois de quase mil e quinhentos anos foram descobertas imagens, figuras, estátuas compostas de pessoas ou deidades metade gente e metade animal ou metade figura mítica. A palavra grotesco passou a ser utilizada não somente em meios artísticos mas também em outras áreas como, por exemplo, na literatura e arquitetura.
Os pintores da época visitavam as escavações para estudar as fantasiosas pinturas. Rafael e Michelangelo com certeza lá estiveram, e Leonardo executou desenhos chamados Cabeças Grotescas.
O estilo grotesco se caracteriza por figuras esguias e distorcidas sobre uma decoração geométrica e naturalista, num fundo geralmente branco. As figuras são muito coloridas, dando origem a cornici, efeitos geométricos e outros, mas sempre mantendo certa leveza, pelo fato de neste gênero, o estilo ser minucioso, quase caligráfico.
A palavra grotesco adquiriu depois no idioma italiano e por difusão, também no idioma português, o sentido de bizarro ou ridículo, mas sem relação com as pinturas originais.
O Ballet clássico, ou dança clássica, em sua definição como movimento e como expressão artística, procura na perfeição do movimento, na exatidão e na técnica, uma proximidade com a definição de precisão em movimento e em arte, um rigor extremo na repetição de movimentos em busca de uma perfeição científica, no sentido clássico da palavra. De acordo com o dicionário Cambridge:
Perfection: complete and correct in every way, of the best possible type or without fault
Já a dança contemporâena encontra definições mais amplas, justamente por ser um tipo de dança que foge as regras rígidas do ballet clássico, tendo movimentos e definições abrangentes:
A dança contemporânea surgiu na década de 1960, como uma forma de protesto ou rompimento com a cultura clássica. Depois de um período de intensas inovações e experimentações, que muitas vezes beiravam a total desconstrução da arte, finalmente - na década de 1980 - a dança contemporânea começou a se definir, desenvolvendo uma linguagem própria, embora algumas vezes faça referência ao ballet clássico.
Há uma liberdade de técnica e criação que não encontram espaço no movimento clássico do ballet, pois este define e cria partituras corporais a partir de técnicas já estabelecidas e enraizadas em uma dança de tradição secular, tendo sua primazia justamente na preservação da técnica e do movimento. O contemporâneo, pelo contrário:
Mais que uma técnica específica, a dança contemporânea é uma coleção de sistemas e métodos desenvolvidos a partir da dança moderna e pós-moderna. O desenvolvimento da dança contemporânea foi paralelo, mas separado do desenvolvimento da New Dance na Inglaterra. Distinções podem ser feitas entre a dança contemporânea estadunidense, canadense e européia.
A dança contemporânea não se define em técnicas ou movimentos específicos, pois o intérprete/bailarino ganha autonomia para construir suas próprias partituras coreográficas a partir de métodos e procedimentos de pesquisa como: improvisação, contato-improvisação, método Laban, técnica de release, Body Mind Centery (BMC), Alvin Nikolai. Esses métodos trazem instrumentos para que o intérprete crie suas composições a partir de temas relacionados a questões políticas, sociais, culturais, autobiográficas, comportamentais e cotidianas, como também a fisiologia e a anatomia do corpo. Aliado a isso, viu-se a necessidade da pesquisa teórica para complementação da prática.
O corpo na dança contemporânea é construído na maioria das vezes a partir de técnicas somáticas, que trazem o trabalho da conscientização do corpo e do movimento, como a técnica Alexander, Feldenkrais, eutonia, Klauss Vianna (Brasil), dentre outras.
A dança contemporànea inclui possibilidades de técnicas variadas e de inclusão de outros pensares contemporâneos: há grupos que ultilizam vídeos em suas apresentações, movimentos com origens em kung fu, em ginástica rítmica, etc. O movimento pode ser modificado a partir dos dançarinos que o executam e do material que está sendo utilizado, um objeto estará ou não estaticamente no palco, visto que há a possibilidade de diferentes linguagens cênicas no dançar contemporâneo.
Pensando nas diferentes técnicas e linguagens possíveis permitidas pela dança contemporânea achou-se conveniente para este trabalho entrevistar coreógrafos que falassem de suas cias de dança e de suas técnicas e opiniões sobre o dançar contemporâneo.
Para relacionar o movimento em dança com as definições artísticas procurou-se encontrar qual fosse o movimento artístico que se encaixasse de maneira mais adequada ao dançar contemporâneo, não se obtendo, entretanto, definição que abrangesse todos os grupos e técnicas possíveis no contemporâneo visto que este não encontra regras rígidas. Entretanto, o grotesco, como forma de expressão artísica, encontra, na visão de alguns coreógrafos e pessoalmente na minha, um bom espaço.
Enquanto expressão de valores podemos comparar o contemporâneo com o clássico em dança usando muito da definição usada por Storr (pg...., texto Disparity and Deformations) quando define o grotesco:
The ruin represents the vanity of human effort.
A record of the decline of the civilisations , it is simultaneously a symbol of the decadence and of the erosion of suposedly eternal values that are said to bring about such decline.

(...) pg 5: In turn, Luca Signorelli, Leonardo da Vinci (...) took cues from the same model, while using it as a license to justify their own flights of fancy, their own periodic scapes from high seriousness and high
Style.

Veja-se aqui que high seriousness and high style não devem ser tomados como expressão de que o clássico renascentista seria melhor do que o grotesco utilizado por estes artistas para justificar os seus”flights of fancy, their own periodic scapes”.

É só o fato de que no contemporâneo se pode dançar criando. Qualquer alma viva que resolva dançar e tenha coragem para mexer o corpo cansado pode inverter a ordem e criar uma coreografia. Diga se de passagem, logicamente, no contemporâneo como em qualquer outra forma de dança, é preciso treino e dedicação. Mas não necessariamente um treinamento no ballet clássico de vinte anos seguidos, embora este venha a ajudar muitíssimo. A beleza do contemporâneo reside em aceitar o grotesco no ser humano, não em negá lo. A imagem da sociedade contemporânea, cheia de contradições, poluição sonora, física, está toda ali, para servir de fonte de inspiração para o contemporâneo. Foi isso que fez o grupo Cena 11 em muitas de suas coreografias. No Skinner Box, ao relatar o condicionamento de todos os animais principalmente do ser humano. No Pequenas Frestas de Fricção Sobre Realidade Insistente, ao levar um pouco do universo lynchiano do sonho em meio a tudo que lembrava caos tecnológico e interações e relações humanas que levam inevitavelmente a queda. É o anti herói, que cai ao invés de dar saltos ornamentais clássicos para provar sua superação, o estado de Super Homem. Mesmo sabendo que, muito provavelmente, é necessário ter mais coragem para deixar o corpo cair e se machucar do que em saltar e demonstrar a agilidade e perfeição.

sábado, 21 de novembro de 2009

New Project.

The basis for my new project follow here. It comes from Against the method, from Feyerabend.

When choosing the term anarchism for my enterprise I simply followed general usage. However anarchism, as it has been practiced in the past and as it is being practiced today by an ever increasing number of people has features I am not prepared to support. It cares little for human lives and human happiness (except for the lives and happiness of those who belong to some special group); and it contains the precise kind of Puritanical dedication and seriousness which I detest. It is for these reasons that now I prefer to use the term Dadaism. A Dadaist would not hurt a fly – let alone a human being. A Dadaist is utterly unimpressed by any serious enterprise and he smells a rat whenever people stop smiling and assume that attitude and those facial expressions which indicate that something important is about to be said. A Dadaist is convinced that a worthwhile life will arise only when we start taking things lightly and when we remove from our speech the profound but already putrid meanings it has accumulated over the centuries (`search for truth´; ´defence of justice´, etc etc). A dadaist is prepared to initiate joyful experiments even in those domains where change and experimentation seem to be out of the question (example: the basic functions of language).

domingo, 18 de outubro de 2009

Protect me from what I want.

Textos para jornal.

Este é sobre uma artista plástica, a Jenny Holzer.
Como quase ninguém sabe, protect me from what I want não é nada Placebo. É dela.

Uma metrópole. Um prédio em região central. Uma frase com letras de proporções de alguns andares, que reluzem, escancaradas do lado de fora do edifício. Uma artista: Jenny Holzer, e a vontade de provocar a reflexão dos que estão a passar pela rua, distraídos ou preocupados com seus afazeres e trabalhos por realizar. “Protect me from what I want” diz ela, mas eu quero tantas coisas, pensamos nós. Nós queremos felicidade – coisa abstracta – nós queremos dinheiro – e que Holzer nos proteja da forma pela qual obteremos o tão desejado objecto de poder – e alguns de nós querem inclusivamente um mundo melhor. Mas o que estaria esta artista a provocar no público com tais palavras? Estaria Holzer a tentar provocar uma postura mais activa e política nos cidadãos comuns das cidades onde sua arte é exposta/ divulgada?
Holzer através da obra “Protect me from what I want” faz da arte contemporânea uma forma de activismo político. O efémero e rápido que observamos no quotidiano das grandes cidades é limpo de todo o seu excesso e transformado numa obra de impacto avassalador através de uma estética minimalista, porém proporcional ao tamanho da sua irreverência no afirmar dos seus “truísmos” - como são nomeadas as frases usadas pela autora no meio que escolheu para fazer arte: a escrita.
“Protect me from what I want” caracteriza um trabalho que nos leva a contestar nossos desejos e os meios que utilizamos para alcançá-los; remete-nos ao nosso universo de sonhos inacabáveis, dos projectos que podemos ter como planos longínquos da felicidade – que não podemos ter – porque não temos dinheiro. Bastante meditativo, o trabalho de Holzer contesta a procura inalcançável do ser humano em busca de satisfação.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Welcome.


Um lugar de perguntas e poucas respostas.
Pra deitar tua cabeça sobre os ombros e ir longe.
Aqueles minutos em que não se consegue parar a mente antes de dormir, que respirar fica complicado porque o mundo é grande, é bonito, e dói muito.

A place of lots of questions and little answers.
To you to lay your head on your shoulders and go far far away.
Those minutes before sleeping when you can´t stop your mind, in those minutes in which breathing is hard, because the world is big, is beautiful, and hurts.



So here it goes. Stories from the past, stories made up in my mind. Here it goes as something imagined and something lived. With no excuses, no apologies, no regrets.

The story of the days.




There is no way. The days went through as fast as the clouds in the sky, which seem to be slow but the truth is that if we look again after a minute they are already gone. The days are like the years, we don´t notice it but they go beyond.And so are the loves, and the friendships, and the people who die wheter we like it or not. And then everythings is kept like that, stored in our heads, kept like we were perpetual, but we are not. And the memories get mixed and get confused and condensate so much that for lots of years I kept a diary but after the eighth exemplar I gave up the attempt. There is no way, there is no remedy, nowadays I look myself at the mirror and I see the result of everything, even with the cosmetics and everything they offered us but the deep thruth is, as it was already said, if we look a minute after we are already someone else. It is so weird to be, this state between sleepy and awake, this state of walking through the crowd with no idea of what goes inside the others, look there, there that old man who has just passed my side , was he already young, does he know that he is going to die, look there that beautiful dog with such a shiny hair, he barks for food we bark for gold, and some of us even bite I think now. Maybe what makes me confuse isn´t how to start. We begin everything without knowing how, the thing is how to finish, what is this thing that everybody calls life which has a begin a middle and the end where is it, we never know when is this moment, and if we know we pretend that it´s going to last a little more, that is to feel satisfied and pretend that there is still enough time to fix all the sins, mistakes, lack of words of love or the punches we should have given someone. This so called existence must be therefore as a text, which I never know how to end, but if it was that so writers would know how to end it, no, life has nothing to do with a text or a story, it is this thing right without a certain definition from subject, predicade and with which I never know what to do.

História dos dias.




Não há como. Os dias passam tão rapidamente como as nuvens no céu, que parecem vagarosas mas a bem da verdade é que se a gente olha um minuto depois elas já se foram. Os dias são como os anos, que não se percebe mas passam. E os amores também, e as amizades, e as pessoas que morrem a gente queira ou não. E tudo fica assim, armazenado na cabeça, guardado como se a gente fosse eterno, mas não é. E as memórias se misturam e se confundem e se condensam tanto que por vários anos mantive um diário que no oitavo exemplar desisti da empreita. Não há como, não há remédio, e hoje olho pro meu rosto e vejo o resultado de tudo, haja produto de beleza, cosmético que oferecem pra gente mas a bem da verdade, como já dito, se a gente olha um minuto depois já é outro. É tão estranho ser, este estado entre o desperto e o sonolento, de andar por entre a multidão sem a mínima idéia do que se passa por dentro de cada um, olha lá aquele homem velho que acabou de passar do meu lado, será que já foi jovem, será que sabe que vai morrer, olha lá aquele cachorro tão bonito de pêlo brilhante, ele late por comida, a gente late por dinheiro, e alguns até mordem, penso agora. Talvez o que me confunde não é como começar, se começa mesmo sem saber como, o negócio é como terminar, o que é esse negócio que chamam de vida que tem um começo meio e o fim cadê, a gente nunca sabe o momento, e se sabe finge que vai demorar mais um pouquinho, que é pra se sentir satisfeito e fingir que dá tempo de consertar todo pecado,erro,falta de palavras de amor ou pancadas que deviam ser dadas em alguém. Essa tal de existência deve ser então como um texto que nunca sei como terminar, mas se dessa forma fosse então os escritores saberiam como terminá-la, não, a vida não tem nada a ver com um livro ou um texto, ela é essa coisa mesmo sem definição certa de sujeito e predicado e com a qual eu nuca sei o que fazer.

The cloth doll and her explosives.


Emília was feeling nauseous. Outside, a cold wind cut everything. From Sunday to Sunday life went on. Maybe, who knows, in a time, things would change and the days would turn into Fridays. And there is also even those ones who say that everything is a sense of point of view. She´s gotten tired of the Super People. They were all very alone. And with a touch of fake in everything. If they´ve drunk coffee, it could be shitty coffee, but being a property of a Super Person it would be transformed. No! There are shitty coffees, and there is a place for shitty coffees in this world. And there are poor people who drink shitty coffee. It doesn´t matter if they speak about european cinema or brazilian funk music. The subject does not change the concrete thing. There is no much to do except to sit and work, if we didn´t do so, we would be sponsored vagabonds. Not introducing there any kind of moral, but the another´s property always leads to bill´s explanations. What have we, me and Emilia, talked about? Oh yes, that the subject doesn´t change the concret thing. And then there was that grey wall, and Emília with her explosives. It was just a matter of weeks.
2005, Florianópolis.

A boneca de pano e seus explosivos.




Emília sentia náuseas. Lá fora, um vento frio cortava tudo. De domingo a domingo a vida continuava. Quem sabe, daqui a um tempo, as coisas mudassem e os dias virassem sextas feiras. E sempre há os que dizem que tudo é uma questão de visão. Cansou-se das Super pessoas. Elas eram todas muito sozinhas. E com um quê de fake em tudo. Se tomavam café, este podia ser vagabundo, mas sendo propriedade de uma Super Pessoa seria transformado. Não! Há cafés vagabundos, e há o lugar deles nesse mundo. E há pessoas pobres que bebem cafés vagabundos. Não interessa se falam de cinema europeu ou de bandas de pagode. O assunto não modifica o concreto. Não há muito o que se fazer senão sentar e trabalhar: se não o fizéssemos, seríamos vadios patrocinados. Não introduzindo aí nenhuma moral, o dinheiro alheio sempre leva a prestação de contas. Do que falávamos eu e Emília? Ah sim, de que o assunto não modifica o concreto. E ali estava aquele muro cinza, e Emília com seus explosivos. Era somente questão de semanas.